tava os bosques; o ar pairava
úmido e pesado, e a roupa de Jon aderia-lhe à pele. Estava
morno. Demasiado morno. A Muralha gotejava
copiosamente, há dias, e por vezes Jon até imaginava que
estava encolhendo.
Os velhos chamavam àquele tempo o verão dos espíritos, e
diziam que significava que a estação estava enfim
despedindo-se de seus fantasmas. Depois viria o frio,
preveniam, e um longo verão significava sempre um longo
inverno. Aquele verão tinha durado dez anos. Jon era bebê de
colo quando começara.
Fantasma correu ao lado deles durante algum tempo e depois
desapareceu por entre as árvores. Sem o lobo gigante, Jon
sentiu-se quase nu. Deu por si olhando para cada sombra com
desconforto. Involuntariamente, pôs-se a recordar as histórias
que a Velha Ama costumava contar quando era pequeno em
Winterfell. Quase conseguia ouvir de novo sua voz, e o clic-
clic-clic de suas agulhas. Naquela escuridão, os Outros
atacaram, costumava dizer, com a voz cada vez mais baixa.
Eram frios e estavam mortos, e odiavam o ferro, e o fogo, t o
toque do sol, e todas as criaturas vivas que possuíssem sangue
quente nas veias. Os castelos, as cidades e os reinos dos
homens caíram perante eles à medida que iam se deslocando
para o sul sobre pálidos cavalos mortos, à frente de hostes de
cadáveres. Alimentavam os criados mortos com carne de
crianças humanas...
Quando viu o primeiro sinal da Muralha pairar acima da copa
de um antigo carvalho nodoso, Jon sentiu-se muito aliviado.
Mormont puxou subitamente as rédeas do cavalo e virou-se
na sela.
- Tarly - bradou -, venha cá.
Jon viu o sobressalto do medo no rosto de Sam enquanto se
aproximava pesadamente em sua égua; não havia dúvida de
que pensava estar metido em encrenca.
- Você é gordo, mas não é estúpido, rapaz - disse bruscamente
o Velho Urso. - Apresentou--se bem lá atrás. E você também,
Snow.
Sam corou, ficando com o rosto vermelho-vivo, e tropeçou na
própria língua ao tentar gaguejar uma cortesia. Jon teve de
sorrir.
Quando emergiram de sob as árvores, Mormont pôs o
pequeno mas resistente cavalo a trote. Fantasma saiu da
floresta a toda velocidade, ao encontro do grupo, lambendo os
beiços, com o focinho vermelho da caça. Muito acima, os
homens na Muralha viram a coluna que se aproximava. Jon
ouviu o chamamento profundo e gutural do grande corno do
vigia, chamando através das milhas; um único e longo sopro
que estremecia entre as árvores e arrancava ecos do gelo.
uuuuuuuuuuooooooooooooooooooooooooooooooo
O som atenuou-se lentamente até silenciar. Um sopro
significava patrulheiros de regresso, e Jon pensou: Pelo menos
fui patrulheiro por um dia. Aconteça o que acontecer, não
podem me tirar isso.
Bowen Marsh os aguardava no primeiro portão quando
levaram os cavalos pelo túnel de gelo. O Senhor Intendente
estava com o rosto vermelho e agitado.
- Senhor - exclamou para Mormont ao abrir as barras de ferro
-, chegou uma ave, precisa vir imediatamente.
- O que se passa, homem? - Mormont disse bruscamente.
De uma forma estranha, Marsh lançou um relance ajon antes
de responder.
- Meistre Aemon tem a carta. Espera no seu aposento
privado.
- Muito bem. Jon, trate do meu cavalo e diga a Sor Jaremy
para pôr os mortos em um armazém até que o meistre esteja
pronto para eles - Mormont afastou-se a passos largos,
resmungando.
Enquanto levavam os cavalos de volta ao estábulo, Jon ficou
desconfortavelmente consciente de que as pessoas o
observavam. Sor Alliser Thorne exercitava seus rapazes no
pátio, mas parou para fitar Jon, com um tênue meio sorriso
nos lábios. Donal Noye, o maneta, estava em pé à porta do
armeiro.
- Que os deuses estejam contigo, Snow - ele gritou.
Há alguma coisa errada, pensou Jon. Há alguma coisa muito
errada.
Os mortos foram levados para um dos depósitos que se
abriam ao longo da base da Muralha, uma cela escura e fria
esculpida no gelo e usada para conservar a carne, os grãos e
por vezes até a cerveja. Jon assegurou-se de que o cavalo de
Mormont fosse alimentado e tratado antes de cuidar do seu.
Depois, foi à procura dos amigos. Grenn e Sapo estavam de
vigia, mas encontrou Pyp na sala comum.
- O que aconteceu? - perguntou. Pyp baixou a voz.
- O rei está morto,
Jon ficou aturdido. Robert Baratheon parecera velho e gordo
quando visitara Winterfell, mas também com boa saúde, e
não se falara de doenças.
- Como é que você sabe?
- Um dos guardas ouviu Clydas ler a carta para Meistre
Aemon - Pyp inclinou-se para mais perto. - Jon, lamento. Ele
era amigo do seu pai, não era?
- Tinham sido próximos como irmãos em tempos passados -
Jon sentiu curiosidade em saber se Joffrey manteria o pai
como Mão do Rei. Não parecia provável. Isso poderia querer
dizer que Lorde Eddard regressaria a Winterfell, e as irmãs
também. Podiam até permitir que ele os visitasse, com
autorização de Lorde Mormont. Seria bom voltar a ver o
sorriso de Arya e falar com seu pai. Vou perguntar-lhe sobre
minha mãe, decidiu. Agora sou um homem, e já é mais que
tempo que me conte. Mesmo que ela fosse uma prostituta,
n